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PAU BRASIL

_Do mesmo auctor_

_Os condemnados_, romance. _Memorias Sentimentaes de João Miramar._

_Em preparação_:

_A estrella de absyntho_, romance. _Seraphim Ponte Grande._

CANCION EIRODEO SWALDDE ANDRADE PREFACI ADOPORP AULOPRA DOILLUM INADOPO RTARSIL A 1925

IMPRESSO PELO “SANS PAREIL” DE PARIS 37, AVENUE KLÉBER

POESIA PAU BRASIL

_A poesia «pau-brasil» é o ovo de Colombo--esse ovo, como dizia um inventor meu amigo, em que ninguem acreditava e acabou enriquecendo o genovez. Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, do alto de um atelier da Place Clichy--umbigo do mundo--descobriu, deslumbrado, a sua propria terra. A volta á patria confirmou, no encantamento das descobertas manuelinas, a revelação surprehendente de que o Brasil existia. Esse facto, de que alguns já desconfiavam, abrio seus olhos á visão radiosa de um mundo novo, inexplorado e mysterioso. Estava creada a poesia «pau-brasil»._

_Já tardava essa tentativa de renovar os modos de expressão e fontes inspiradoras do sentimento poetico brasileiro, ha mais de um seculo soterrado sob o peso livresco das ideas de importação. Um dos aspectos curiosos da vida intellectual do Brasil é esse da litteratura propriamente dita, ter evoluido acompanhando de longe os grandes movimentos da arte e do pensamento europeus, emquanto a poesia se immobilizou no thomismo dos modelos classicos e romanticos, repetindo com enfadonha monotonia, as mesmas rimas, metaphoras, rythmos e allegorias. Veio-lhe sobretudo o retardo no crescimento do mal romantico que, ao nascer da nossa nacionalidades, infeccionou tão profundamente a tudo e a todos. Com a partida para fóra da colonia do lenço de alcobaça e da caixa de rapé de d. João VI, emigraram por largo tempo deste paiz o bom senso terra a terra e a visão clara e burgueza das coisas e dos homens._

_Em politica o chamado «grito do Ypiranga» inaugurou a deformação da realidade de que ainda não nos libertamos e nos faz viver num como sonho de que só nos accordará alguma catastrophe bemfeitora. Em litteratura, nenhuma outra influencia poderia ser mais deleteria para o espirito nacional. Desde o apparecimento dos «Suspiros poeticos e Saudades», de Gonçalves de Magalhães, que os nossos poetas e escriptores, até os claros dias de hoje, têm bebido inspirações no craneo humano cheio de bourgogne com que se embebedava Child Harold nas orgias de Newstead. O lyrismo puro, simples e ingenuo, como um canto de passaro, só o exprimiram talvez dois poetas quasi desprezados--um, Casimiro de Abreu, relegado á admiração das melindrosas provincianas e caixeiros apaixonados; outro, Catullo Cearense, trovador sertanejo, que a mania litteraria já envenenou. Foram esses, melancolicos, desalinhados e sinceros, os dois unicos interpretes do rythmo profundo e intimo da Raça, como Ronsard e Musset na França, Mœriken e Uhland na Allemanha, Chaucer e Burns na Inglaterra, e Whitman nos Estados Unidos. Os outros são lusitanos, francezes, hespanhoes, inglezes e allemães, versificando numa lingua extranha que é o portuguez de Portugal, esbanjando talento e mesmo genio num deperdicio lamentavel e nacional._

_O verso classico_:

Sur des pensers nouveaux, faisons des vers antiques

_está tambem errado. Não só mudaram as idéas inspiradoras da poesia, como tambem os moldes em que ella se encerra. Encaixar na rigidez de um soneto todo o baralhamento da vida moderna é absurdo e ridiculo. Descrever com palavras laboriosamente extrahidas dos classicos portuguezes e desentranhadas dos velhos diccionarios, o pluralismo cinematico de nossa epoca, é um anachronismo chocante, como se encontrassemos num Ford um tricornio sobre uma cabeça empoada, ou num torpedo a alta gravata de um dandy do tempo de Brummel. Outros tempos, outros poetas, outros versos. Como Nietzsche, todos exigimos que nos cantem um canto novo._

_A poesia «pau-brasil» é, entre nós, o primeiro esforço organisado para a libertação do verso brasileiro. Na mocidade culta e ardente de nossos dias, já outros iniciaram, com escandalo e successo, a campanha de liberdade e de arte pura e viva, que é a condição indispensavel para a existencia de uma litteratura nacional. Um periodo de construcção creadora succede agora ás lutas da epoca de destruição revolucionaria, das «palavras em liberdade». Nessa evolução e com os caracteristicos de suas individualidades, destacam-se os nomes já consagrados de Ronald de Carvalho, Mario de Andrade e Guilherme de Almeida, não falando nos rapazes do grupo paulista, modesto e heroico._

_O manifesto de Oswald, porém, dizendo ao publico o que muitos aqui sabem e praticam, tem o merito de dar uma disciplina ás tentativas esparsas e hesitantes. Poesia «pau-brasil». Designação pitoresca, incisiva e caricatural, como foi a do confettismo e fauvismo para os néo-impressionistas da pintura, ou a do cubismo n’estes ultimos quinze annos. É um epitheto que nasce com todas as promessas de viabilidade._

_A mais bella inspiração e a mais fecunda encontra a poesia «pau-brasil» na affirmação desse nacionalismo que deve romper os laços que nos amarram desde o nascimento á velha Europa, decadente e exgotada. Em nossa historia já uma vez surgio esse sentimento aggressivo, nos tempos turbados da revolução de 93, quando «pau-brasil» era o jacobinismo dos Tiradentes de Floriano. Sejamos agora de novo, no cumprimento de uma missão ethnica e protectora, jacobinamente brasileiros. Libertemo-nos das influencias nefastas das velhas civilisações em decadencia. Do novo movimento deve surgir, fixada, a nova lingua brasileira, que será como esse «Amerenglish» que citava o_ Times _referindo-se aos Estados-Unidos. Será a rehabilitação do nosso falar quotidiano_, sermo plebeius _que o pedantismo dos grammaticos tem querido eliminar da lingua escripta_.

_Esperemos tambem que a poesia «pau-brasil» extermine de vez um dos grandes males da raça--o mal da eloquencia balofa e roçagante. Nesta epoca apressada de rapidas realisações a tendencia é toda para a expressão rude e núa da sensação e do sentimento, numa sinceridade total e synthetica._

«Le poète japonais Essuie son couteau: Cette fois l’éloquence est morte».

_diz a haïkaï japonez, na sua concisão lapidar. Grande dia esse para as lettras brasileiras. Obter, em comprimidos, minutos de poesia. Interromper o balanço das bellas phrases sonoras e ôcas, melopea que nos approxima, na sua primitividade, do canto erotico dos passaros e dos insectos. Fugir tambem do dynamismo retumbante das modos em atrazo que aqui aportam, como o futurismo italiano, doze annos depois do seu apparecimento, decrepitas e tresandando a naphtalina. Nada mais nocivo para a livre expansão do pensamento meramente nacional do que a importação, como novidade, dessas formulas exoticas, que envelhecem e murcham num abrir e fechar de olhos, nos cafés literarios e nos cabarets de Pariz, Roma ou Berlim. Deus nos livre desse snobismo rastacuerico, de todos os «ismos» parasitas das ideas novas, e sobretudo das duas inimigas do verdadeiro sentimento poetico--a Litteratura e a Philosophia. A nova poesia não será nem pintura, nem esculptura, nem romance. Simplesmente poesia com P grande, brotando do solo natal, inconscientemente. Como uma planta._

_O manifesto que Oswald de Andrade publica encontrará nos que lêm (essa infima minoria) escarneo, indignação e mais que tudo--incomprehensão. Nada mais natural e mais razoavel: está certo. O grupo que se oppõe a qualquer idéa nova, a qualquer mudança no ramerrão das opiniões correntes é sempre o mesmo: é o que vaiou o_ Hernani _de Victor Hugo, o que condemnou nos tribunaes Flaubert e Baudelaire, é o que pateou Wagner, escarneceu de Mallarmé e injuriou Rimbaud. Foi esse espirito retrogrado que fechou o_ Salon _official aos quadros de Cézanne, para o qual Millerand pede hoje as honras do Panthéon; foi inspirado por elle que se recusou uma praça de Pariz para o Balzac de Rodin. É o grupo dos novos-ricos da Arte, dos empregados publicos da literatura, Academicos de fardão, Genios das provincias, Poetas do «Diário Official». Esses defendem as suas posições, pertencem à maçonaria da Camaradagem, mais fechada que a da politica; agarram-se ás taboas desconjuntadas das suas reputações: são os bonzos dos templos consagrados, os santos das capellinhas litterarias. Outros, são a massa gregaria dos que não comprehendem, na innocencia da sua curteza, ou no afastamento forçado das coisas do espirito. Destes falava Rémy de Gourmont quando se referia a «ceux qui ne comprennent pas». Deixemol-os em paz, no seu contentamento obtuso de pedra bruta, ou de muro de taipa, inabalavel e empoeirado._

_Para o glú-glú desses perús de roda, só ha duas respostas: ou a alegre combatividade dos moços, a verve dos enthusiasmos triumphantes, ou para o scepticimo e o aquoibonismo dos já descrentes a cançados o refugio de que falava o mesmo Gourmont, no Silencio das Torres (das Torres de marfim, como se dizia)._

_Maio, 1924._

_Paulo PRADO._

A Blaise Cendrars por occasião da descoberta do Brasil

INDICE

PAG. PERO VAZ CAMINHA 25 GANDAVO 26 O CAPUCHINHO CLAUDE D’ABBEVILLE 29 FREI VICENTE DO SALVADOR 30 FERNÃO DIAS PAES 32 FREI MANOEL CALADO 32 J. M. P. S. 33 PRINCIPE DOM PEDRO 33

INDICE DAS FIGURAS

PAG. HISTORIA DO BRASIL 23 POEMAS DA COLONIZAÇÃO 35 SÃO MARTINHO 43 R P 1 51 CARNAVAL 61 SECRETARIO DOS AMANTES 65 POSTES DA LIGHT 69 ROTEIRO DAS MINAS 85 LOYDE BRASILEIRO 101

=Escapulario=

No Pão de Assucar De Cada Dia Dae-nos Senhor A Poesia De Cada Dia

=Falação=

O Cabralismo. A civilização dos donatarios. A Querencia e a Exportação.

O Carnaval. O Sertão e a Favella. Pau-Brasil. Barbaro e nosso.

* * * * *

A formação ethnica rica. A riqueza vegetal. O minério. A cosinha. O vatapá, o ouro e a dansa.

* * * * *

Toda a historia da Penetração e a historia commercial da America. Pau-Brasil.

* * * * *

Contra a fatalidade do primeiro branco aportado e dominando diplomaticamente as selvas selvagens. Citando Virgilio para os tupiniquins. O bacharel.

* * * * *

Paiz de dores anonymas. De doutores anonymos. Sociedade de naufragos eruditos.

Donde a nunca exportação de poesia. A poesia emmaranhada na cultura. Nos cipós das metrificações.

* * * * *

Seculo vinte. Um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como babeis de borracha. Rebentaram de encyclopedismo.

* * * * *

A poesia para os poetas. Alegria da ignorancia que descobre. Pedr’ Alvares.

* * * * *

Uma suggestão de Blaise Cendrars: Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivella do desvio rotativo em que estaes. O menor descuido vos fará partir na direcção opposta ao vosso destino.

* * * * *

Contra o gabinetismo, a palmilhação dos climas.

* * * * *

A lingua sem archaismos. Sem erudição. Natural e neologica. A contribuição millionaria de todos os erros.

* * * * *

Passara-se do naturalismo á pyogravura domestica e á Kodak excursionista.

Todas as meninas prendadas. Virtuoses de piano de manivella.

As procissões sahiram do bojo das fabricas.

Foi preciso desmanchar. A deformação atravez do impressionismo e do symbolo. O lyrismo em folha. A apresentação dos materiaes.

* * * * *

A coincidencia da primeira construcçâo brasileira no movimento de reconstrucção geral. Poesia Pau Brasil.

* * * * *

Contra a argucia naturalista, a synthese. Contra a copia, a invenção e a surpresa.

* * * * *

Uma perspectiva de outra ordem que a visual. O correspondente do milagre physico em arte. Estrellas fechadas nos negativos photographicos.

* * * * *

E a sábia preguiça solar. A rosa. A energia silenciosa. A hospitalidade.

* * * * *

Barbaros, pictorescose e credulos. Pau-Brasil. A floresta e a escola. A cosinha, o minério e a dansa. A vegetação. Pau Brasil.

HISTORIA DO BRASIL

PERO VAZ CAMINHA

=A descoberta=

Seguimos nosso caminho por este mar de longo Até a oitava da Paschoa Topamos aves E houvemos vista de terra

=Os selvagens=

Mostraram-lhes uma gallinha Quasi haviam medo della E não queriam pôr a mão E depois a tomaram como espantados

=Primeiro chà=

Depois de dansarem Diogo Dias Fez o salto real

=As meninas da gare=

Eram tres ou quatro moças bem moças e bem gentis Com cabellos mui pretos pelas espadoas E suas vergonhas tão altas et tão saradinhas Que de nós as muito bem olharmos Não tinhamos nenhuma vergonha

GANDAVO

=Hospedagem=

Porque a mesma terra he tal E tam favoravel aos que a vam buscar. Que a todos agazalha e convida

=Chorographia=

Tem a forma de hua harpa Confina com as altissimas terras dos Andes E fraldas do Perú As quaes são tão soberbas em cima da terra Que se diz terem as aves trabalho em as passar

=Salubridade=

O ser ella tam salutifera e livre de enfermidades Procede dos ventos que cruzam nella E como todos procedem da parte do mar Vem tam puros e coados Que nam somente nam danam Mas recream a accrescentam a vida do homem

=Systema hydrographico=

As fontes que ha na terra sam infinitas Cujas aguas fazem crescer a muytos e muy grandes rios Que por esta costa Assi da banda do Norte como do Oriente Entram no mar oceano

=Paiz do ouro=

Todos tem remedio de vida E nenhum pobre anda pelas portas A mendigar como nestes Reinos

=Natureza morta=

A esta fruita chamam Ananazes Depois que sam maduras tem un cheiro muy suave E como-se aparados feitos em talhada E assi fazem os moradores por elle mais E ós tem em mayor estima Que outro nenhum pomo que aja na terra

=Riquezas naturaes=

Muitos metaes pepinos romans e figos De muitas castas Cidras limões a laranjas Uma infinidade Muitas cannas daçucre Infinito algodam Tambem ha muito páo brasil Nestas capitanias

=Festa da raça=

Hu certo animal se acha tambem nestas partes A que chamam Preguiça Tem hua guedelha grande no toutiço E se move com passos tam vagarosos Que ainda que ande’ quinze dias aturado Não vencerá distancia de hu tiro de pedra

O CAPUCHINHO CLAUDE D’ABBEVILLE

=A moda=

Les femmes n’ont point la lèvre percée Mais en récompense Elles ont les oreilles trouées Et elles s’estiment aussi braves Aves des rouleaux de bois dedans les trous Que font les dames de pardeça Avec leurs grosses perles et riches diamants

=Çà e là=

Cette coustume de marcher nud Est merveilleusement difforme et deshonneste N’estant peut estre si dangereuse Ni si attrayante Que les nouvelles inventions Des dames de pardeça Qui ruinent plus d’âmes Que ne le font les filles indiennes

=O paiz=

Il y a une fontaine Au beau milieu Particulière en beauté Et en bonté Des eaux vives et très claires Rejaillissent dicelle Et ruissellet dedans la mer Estant environnée De palmiers guyacs myrtes Sur lesquels On voit souvent Des monnes et guenons

FREI VICENTE DO SALVADOR

=Paisagem=

Cultivam-se palmares de cocos grandes Principalmente á vista do mar

=As aves=

Ha aguias de sertão E emas tão grandes como as de Africa Umas brancas e outras malhadas de negro Que com uma aza levantada ao alto Ao modo de vela latina Correm com o vento

=Amor de inimiga=

Posto que alguma Pelo amor que lhe tem Solta tambem o preso E se vae com elle pera suas terras

=Prosperidade de São Paulo=

Ao redor desta villa Estão quatro aldeias de gentio amigo Que os padres da Companhia doutrinam Fóra outro muito Que cada dia desce do sertão

FERNÃO DIAS PAES

=Carta=

Partirei Com quarenta homens brancos afóra eu E meu filho E quatro tropas de mossos meus Gente escoteyra com polvora e chumbo

Vossa Senhoria Deve considerar que este descobrimento É o de maior consideração Em rasam do muyto rendimento E tambem esmeraldas

FREI MANOEL CALADO

=Civilização pernambucana=

As mulheres andam tão louçãs E tão custosas Que não se contentam com os tafetas São tantas as joias com que se adornam Que parecem chovidas em suas cabeças e gargantas As perolas rubis e diamantes

Tudo são delicias Não parece esta terra senão um retrato Do terreal paraizo

J. M. P. S.

(da cidade do porto)

=Vicio na fala=

Para dizerem milho dizem mio Para melhor dizem mió Para peor pió Para telha dizem têia Para telhado dizem teado E vão fazendo telhados

PRINCIPE DOM PEDRO

=Carta ao patriarcha=

Tendo pensamenteado toda a noite Assentei passar revista aos Granadeiros Assim se os enxergar esta tarde no Rossio Não assente ver Bernarda

Encumbi ao Miquilina E ao Major do Regimento dos Pardos Para virem me dar parte De tudo que se disser pelos Botequins

Estimarei que approve esta medida E assento que melhores E mais fieis e adherentes á causa do Brasil Do que os Pardos meus amigos Ninguem

POEMAS DA COLONIZAÇÃO

=A transação=

O fazendeiro creara filhos Escravos escravas Nos terreiros de pitangas e jaboticabas Mas um dia trocou O ouro da carne preta e musculosa As gabirobas e os coqueiros Os monjolos e os bois Por terras imaginarias Onde nasceria a lavoura verde do café

=Fazenda antiga=

O Narciso marcineiro Que sabia fazer moinhos e mesas E mais o Casimiro da cosinha Que aprendera no Rio E o Ambrosio que atacou Seu Juca de faca E suicidou-se As desenove pretinhas gravidas

=Negro fugido=

O Jeronymo estava numa outra fazenda Socando pilão na cosinha Entraram Grudaram nelle O pilão tombou Elle tropeçou E cahiu Montaram nelle

=O recruta=

O noivo da moça Foi para a guerra E prometteu se morresse Vir escutar ella tocar piano Mas ficou para sempre no Paraguay

=Caso=

A mulatinha morreu E appareceu Berrando no moinho Socando pilão

=O grammatico=

Os negros discutiam Que o cavallo sipantou Mas o que mais sabia Disse que era Sipantarrou

=O medroso=

A assombração apagou a candeia Depois no escuro veiu com a mão Pertinho delle Ver se o coração ainda batia

=Scena=

O canivete voou E o negro comprado na cadeia Estatelou de costas E bateu coa cabeça na pedra

=O capoeira=

--Qué apanhá sordado --O que? --Qué apanhá? Pernas e cabeças na calçada

=Medo da Senhora=

A escrava pegou a filhinha nascida Nas costas E se atirou no Parahyba Para que a creança não fosse judiada

=Levante=

Contam que houve uma porção de enforcados E as caveiras espetadas nos postes Da fazenda deshabitada Mivam de noite No vento do matto

=A roça=

Os cem negros da fazenda Comiam feijão e angú Abobora chicorea e cambuquira Pegavam uma roda de carro Nos braços

=Azorrague=

--Chega! Perdôa! Amarrados na escada A chibata preparava os cortes Para a salmoura

=Relicario=

No baile da Corte Foi o Conde d’Eu quem disse Pra Dona Bemvinda Que farinha de Suruhy Pinga do Paraty Fumo de Baependy É comê bebê pitá e cahi

=Senhor feudal=

Se Pedro Segundo Vier aqui Com historia Eu boto elle na cadeia

SÃO MARTINHO

=Nocturno=

Lá fóra o luar continua E o trem divide o Brasil Como un meridiano

=Prosperidade=

O café é o ouro silencioso De que a geada orvalhada Arma torrefacções ao sol Passarinhos assoviam de calor Eis-nos chegados á grande terra Dos cruzados agricolas Que no tempo de Fernão Dias E da escravidão Plantaram fazendas como sementes E fizeram filhos nas senhoras e nas escravas Eis-nos deante dos campos atavicos Cheios de gallos e de rezes Com porteiras e trilhos Usinas e egrejas Caçadas e frigorificos Eleições tribunaes e colonias

=Paisagem=

O cafesal é um mar alinhavado Na afflição humoristica dos passarinhos Nuvens constroem cidades nos horizontes dos carreadores E o fazendeiro olha os seus 800.000 pés coroados

=Bucolica=

Agora vamos correr o pomar antigo Bicos aereos de patos selvagens Tetas verdes entre folhas E uma passarinhada nos vaia Num tamarindo Que decola para o anil Arvores sentadas Quitandas vivas de laranjas maduras Vespas

=Escola rural=

As carteiras são feitas para anõezinhos De pé ao chão Ha uma pedra negra Com syllabas escriptas a giz A professora está de licença E monta guarda a um canto numa vara A bandeira alvi-negra de São Paulo Enrolada no Brasil

=Pae negro=

Cheio de rotulos Na cara nas muletas Pedindo duas vezes a mesma esmola Porque só enxerga uma nuvem de mosquitos

=Assombração=

6 horas O Domingos Papudo E a besta preta Nadando no vento

=Lei=

Depois da creação do municipio novo Plantado depressa nas ruas de poeira Os bebés inumeraveis da colonia Serão registados em Pradopolis

=Tragedia Passional=

Hoje acendem velas Na cruz no matto E ha uma inscripção Dizendo que o cadaver da moça Foi achado nel Rio del’ Onza

=Morro Azul=

Passarinhos Na casa que ainda espera o Imperador As antenas palmeiras escutam Buenos-Ayres Pelo telephone sem fios Pedaços de ceu nos campos Ladrilhos no ceu O ar sem veneno O fazendeiro na rede E a Torre Eiffel nocturna e sideral

=O violeiro=

Vi a sahida da lua Tive um gosto singulá Em frente da casa tua São vortas que o mundo dá

=Matte Chimarão=

Depois da churrascada Ao fogo e ao vento O cavalleiro do gado Trouxe ouro em pó E uma cuia festiva Para sorvermos a digestão

=A laçada=

O Bento cahiu como um toro No terreiro E o medico veiu de Chevrolet Trazendo um prognostico E toda a minha infancia nos olhos

=Versos de Dona Carrie=

A neblina nos segue como um convidado Mas ha um clarão para as bandas de Loreto Cafezaes Cidades Que a Paulista recorta Corôa colhe e esparrama em safras A nova poesia anda em Goffredo Que nos espera de Ford Numa roupa clara de fazenda É elle quem cuida da plantação E organiza a serraria como um poema O team feminino nos bate Mas Cendrars faz a ultima carambola Soldado de todas as guerras Foi elle quem salvou a França na Champagne E os homens na partida de bilhar daquella noite Terraço Rede Paineiras pelo ceo As estrellas de Gonçalves Dias

=Metalurgica=

1.300° á sombra dos telheiros rectos 12.000 cavallos invisiveis pensando 40.000 toneladas de nickel amarello Para sahir do nivel das aguas esponjosas E uma estrada de ferro nascendo do solo Os fornos entroncados Dão o gusa e a escoria A refinação planta barras E là em baixo os operarios Forjam as primeiras lascas de aço

R P 1

=3 de Maio=

Aprendi com meu filho de dez annos Que a poesia é a descoberta Das coisas que eu nunca vi

=Poema do Sanctuario=

Já estive diversas vezes na Apparecida Onde ha uma velha lucta Que é uma antiga disputa Entre duas casas commerciaes Que querem ao mesmo tempo ser Na ladeira de sol A Verdadeira Casa Verde

=Dithirambo=

Meu amor me ensinou a ser simples Como um largo de egreja Onde não ha nem um sino Nem um lapis Nem uma sensualidade

=Sol=

Uma vez fui a Guará A Guaratinguetá E agora Nesta hora de minha vida Tenho uma vontade vadia Como un photographo

=Guararapes=

Japonezes Turcos Migueis Os hoteis parecem roupas alugadas Negros como num compendio de historia patria Mas que sujeito loiro

=Walzertraum=

Aqui dá arroz Feijão batata Leitão e patarata Passam 18 trens por dia Fóra os extraordinarios E o trem leiteiro Que leva leite para todos os bébés do Rio de Janeiro Apitos antigos apitam Sentimentalmente Eu gosto dos sanctuarios Das viagens E de alguns hoteis O Bertolini’s em Napoles O d’Angleterre em Caen Onde Brummel morreu O hotel da Viuva Fernando na Apparecida E um hotel sem nome Na fronteira de Portugal Onde uma mulher bonita Quiz fazer pipi Pela primeira vez

=Fim e começo=

A noite cahiu com licença de Camara Se a noite não cahisse Que seriam dos lampeões?

=Cidade=

Foguetes pipocam o ceu quando em quando Ha uma moça magra que entrou no cinema Vestida pela ultima fita Conversas no jardim onde crescem bancos Sapos Olha A illuminação é de hulha branca Mamães estão chamando A orchestra rabecôa na matta

=Bonde=

O transatlantico mesclado Dlendlena e esguicha luz Postretutas e famias sacolejam

=Vadiagem mystica=

Passei quasi toda a manhã na Basilica Resando e olhando Vi dois casamentos Bentos De fraque O sachristão chama-se Seu Bentinho E a gente logo que sahe da egreja Cahe no rio espraiado O hoteleiro de meu hotel Tem côr de medalha de pescoço E conta-me que já houve cafezaes Nos pastos Nos bambusaes

Se eu me casasse Queria uma orchestra Bem besta

=Poema da Cachoeira=

É a mesma estação rente do trem Toda de pedra furadinha

Meu pae morou alguns annos aqui Trabalhando Um dia liquidou Activo passivo Cinco gallinhas E deram-lhe uma passagem de presente Para que eu nascesse em São-Paulo Como não houvesse estrada de rodagem Elle foi na de ferro Comprando frutas pelo caminho

=Carro restaurante=

Portugal ao longo do Tejo Para dentro de Portugal Casas amontoadas no dia azul Um queijo da Estrella Figos e estrellas

Creme Brasil Industria Vassourense Doce de leite Agua de Caxambú

A natureza Sobre a mesa

=Nova Yguassu=

Confeitaria Tres Nações Importação e Exportação Açougue Ideal Leiteria Moderna Café do Papagaio Armarinho União No paiz sem peccados

=Agente=

Quartos para familias e cavalheiros Predio de 3 andares Construido para esse fim Todos de frente Mobiliados a estylo moderno Modern Sstyle Agua Telephone elevadores Grande Terraço systema yankee Donde se descortina o bello panorama De Guanabara

=Capital da Republica=

Temperatura de bolina O orgulho de ser branco Na terra morena e conquistada E a sahida para as praias calçadas Arborizadas A Avenida se abana com as folhas meúdas Do Pau-Brasil Politicos dormem ao calor do Norte Mulheres se desconjuntam Boccas lindas Sujeitos de olheiras brancas O Pão de Assucar artificial

CARNAVAL

=Nossa Senhora dos Cordões=

Evohé Protectora do Carnaval em Botafogo Mãe do rancho victorioso Nas pugnas de Momo Auxiliadora dos artisticos trabalhos Do barracão Patrona do livro de ouro Proteje nosso querido artista Pedrinho Como o chamamos na intimidade Para que o brilhante cortejo Que vamos sobremetter á apreciação Do culto povo carioca E da Imprensa Brasileira Acerrima defensora da Verdade e da Razão Seja o mais luxuoso novo e original E tenha o veredictum unanime No grande prelio Que dentro de poucas horas Se travará entre as hostes aguerridas Do Riso e da Loucura

=Na Avenida=

A banda de clarins Annuncia com os seus clangorosos sons A approximação do impetuoso cortejo A commissão de frente Composta De distinctos cavalleiros da boa sociedade Rigorosamente trajados E montando fogosos corceis Pede licença de chapeo na mão

20 creanças representando de vespas Constituem a guarda de honra Da Porta Estandarte Que é precedida de 20 damas Fantasiadas de pavão Quando 40 homens do cõro Conduzindo palmas E artisticamente fantasiados de papoulas Abrem a Allegoria Do Palacio Floral Entre luzes electricas

SECRETARIO DOS AMANTES